"O PROBLEMA DA EUROPA NÃO SE CHAMA RÚSSIA - CHAMA-SE TRUMP"
Durante anos disseram-nos que o grande perigo para a Europa vinha do Leste. Um perigo frio, previsível, com fronteiras claras, tanques visíveis e discursos conhecidos. Chamava-se Rússia. E, de facto, a Rússia não é o problema. A Rússia não esconde no seu discurso sério, histórico e nada despiciendo aquilo que pretende. Não ser acossada!
Enquanto a Europa olha fixamente com medo de Moscovo, alguém do outro lado do Atlântico resolveu virar o tabuleiro, atirar as peças ao chão e declarar que o jogo agora é outro. Esse alguém chama-se Donald Trump. E o seu problema não é a Rússia, nem a China, nem o Irão. O problema de Trump é simples: as regras.
Trump não governa por tratados, governa por impulsos. Não acredita em alianças; acredita em negócios. Não respeita equilíbrios; respeita vantagens. Para ele, a política internacional não é um sistema de cooperação imperfeita - é um leilão permanente onde ganha quem ameaça melhor.
Começou com tarifas. Depois recuou. Depois avançou outra vez. Fez da economia uma arma e da instabilidade uma estratégia. Olhou para a NATO e viu um clube caro, não uma aliança defensiva, mesmo sabendo as vezes que foi usada para atacar outros. Olhou para a Ucrânia e viu uma fatura. Olhou para a Europa e viu um cliente obrigado a comprar armas americanas para resolver um problema que os EUA ajudam a prolongar.
No Médio Oriente, Trump ajudou a incendiar o que já ardia. Fez da Palestina um detalhe, de Israel um cheque em branco e do Irão um inimigo conveniente. Paz não era o objetivo; alinhamento era. O direito internacional? Um incómodo retórico, bom para discursos da ONU e pouco mais.
Depois fingiu aproximar-se da Rússia. Um acordo aqui, um aceno ali, uma conversa sobre divisões territoriais que nunca se resolve mas nunca desaparece. A Rússia já não se interessa de conversas ocas: avança com método e paciência clássica. Trump observa, negocia, ameaça - e deixa no ar a sensação de que tudo é transacionável, de fronteiras até terras raras.
E quando a Europa ainda tentava perceber se devia temer mais Moscovo ou Kiev, Trump apontou para a Gronelândia. Um território de um aliado da NATO. Falou como se fosse um imóvel à venda. Não era provocação: era coerência. Na lógica trumpista, aliados são úteis enquanto não atrapalham.
Virou-se para a Venezuela? Uma velha desculpa com nome novo: “controlo da droga”. O argumento é frágil, quase insultuoso. O objetivo é óbvio: petróleo, influência, sinal para outros. Cuba e Colômbia entram no discurso como ameaças a silenciar, não como parceiros a ouvir. O direito internacional transforma-se em ruído de fundo.
Olhou para a China como um adversário que tinha que abater com respeito? Mas a China faz o que potências pacientes fazem: observa. Sabe que quando um império começa a rasgar as próprias regras, não precisa de ser empurrado - cai sozinho, ou pelo menos enfraquece-se.
É aqui que a Europa e principalmente os dirigentes da União Europeia deviam parar de repetir slogans e começar a pensar. O verdadeiro risco para a segurança europeia não é um tanque russo a atravessar uma fronteira. É a possibilidade de o principal garante da ordem atlântica deixar de acreditar nela. É a política americana que substitui previsibilidade por chantagem, alianças por contratos, direito por força.
A Europa não precisa de mais armas. Precisa de autonomia política, coerência estratégica e, sobretudo, de se proteger de um "aliado" que já não se comporta como tal. Porque quando a potência que escreveu grande parte das regras decide ignorá-las, o sistema inteiro entra em colapso.
O problema da Europa não se chama Rússia. A Rússia é uma nação que serviu a Europa com a sua energia e que recebia pelo que vendia. Deixou de vender porque foi impedida pelas politicas que a sancionaram por pressão de quem - hoje - se exclui dos acordos. O problema da Europa chama-se Trump - ou, mais exatamente, o "trumpismo": a ideia de que o mundo funciona melhor sem regras, sem compromissos e sem memória histórica.
E quando isso acontece, não é apenas a Europa que fica em perigo. É a própria ideia de ordem internacional que começa a desfazer-se - nó a nó.
Se a Europa não acordar deste pesadelo, poderá cair definitivamente da sua "cama" de conforto politico e encontrar-se num labirinto sem saída."
*Por João Gomes, via Blaut Ulian Júnior.
Fonte: https://www.facebook.com/share/1f2Jh5aWE4/
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