QUEM É DELCY RODRÍGUEZ, "GUERREIRA CORAJOSA" DE MADURO, AGORA PRESIDENTE INTERINA DA VENEZUELA?


Por Inês Chaíça, Público, 4/01/2025. Via Blaut Ulian Júnior e Paulo Marques.

"Delcy Rodríguez, indicada este domingo para assumir a presidência da Venezuela, terá sido escolhida pela Administração Trump para trabalhar numa transição segura — e a escolha surpreendeu.

Quando surgiram as primeiras notícias do ataque norte-americano a Caracas e da posterior captura do líder venezuelano Nicolás Maduro e da primeira-dama, Cilia Flores, a vice-presidente venezuelana Delcy Rodriguez emergiu, desde logo, como uma voz oficial do Governo venezuelano.

A sua primeira reacção foi a de condenar o ataque e denunciar o rapto do Presidente, pedindo uma prova de vida. Seguiram-se horas de silêncio – que se fizeram ainda mais longas pelas mensagens contraditórias que surgiam dos EUA.

Donald Trump anunciou que os EUA iriam assumir a gestão do país até que se pudesse fazer uma “transição segura”. Sem querer dar muitos pormenores, deu a entender que o poder ficaria nas mãos de uma equipa composta por vários nomes norte-americanos – como o secretário de Defesa, Pete Hegseth, ou o de Estado, Marco Rubio —, mas também deu a entender que Rodríguez estaria disposta a trabalhar com Washington numa nova fase para a Venezuela.

“Ela teve uma conversa com Marco [Rubio]. Disse ‘vamos fazer o que precisarem’. Acho que ela foi atenciosa. Vamos fazer as coisas da maneira certa”, resumiu.

A sugestão surpreendeu os analistas que não vêem em Delcy Rodríguez, fervorosa apoiante do Governo de Hugo Chávez e de Maduro, uma primeira escolha para os norte-americanos. “Ela não é uma alternativa moderada a Maduro. Ela tem sido uma das figuras mais poderosas e intransigentes do sistema”, descreve Imdat Oner, analista no Instituto Jack D. Gordon e antigo diplomata turco na Venezuela, à CNN.

A verdade é que Rodríguez, que foi indicada este domingo para assumir a presidência interina do país, tal como manda a Constituição (que dedica vários artigos para dirimir dúvidas sobre o que fazer se o Presidente se ausentar), pode não se cingir tanto ao guião quanto Donald Trump parece fazer crer.

Na noite de sábado, quebrando um silêncio de várias horas, surgiu na televisão para dizer que Maduro “é o único Presidente da Venezuela” e que o país não vai ser “colónia de ninguém”.

Herdeira revolucionária e “guerreira” de Maduro
Delcy Rodríguez nasceu num berço ideológico que favoreceu a sua subida política. É filha de Jorge Antonio Rodríguez, guerrilheiro e fundador do partido revolucionário Liga Socialista, que esteve envolvido no sequestro do empresário norte-americano William Niehous, suposto contacto da CIA no país, em 1976. Rodríguez acabaria por ser detido e morrer sob tortura às mãos do Estado, o que o tornou um mártir para o chavismo.

“Delcy Gómez, a viúva, ficou marcada por esse crime. Instigou nos seus filhos a obrigação de serem os melhores, conquistar o poder e vingar a morte do seu pai”, dizia um amigo da família ao El País, em 2024. Era claro para a filha que, em 2018, dizia à televisão estatal que “a revolução é a nossa vingança pela morte do nosso pai”.

Tanto ela como o irmão, Jorge Rodríguez, actual presidente do Parlamento venezuelano, singraram na política. Dercy, formada em Direito na Venezuela, França e Reino Unido, anda há pelo menos duas décadas nos corredores do poder.

Destacou-se ainda na época de Hugo Chávez, antecessor de Maduro na presidência da Venezuela, passando pelos ministérios de Energia e Minas e pelo Gabinete da Presidência.

Já na era Maduro, foi ministra da Comunicação e Informação, assumindo depois a pasta dos Negócios Estrangeiros — onde se destacou por defender a todo o custo o país na arena internacional, mesmo das acusações de violação dos direitos humanos —, Finanças e Economia. Mais recentemente, acumulava a vice-presidência com a pasta do Petróleo, num país que tem das maiores reservas de crude do mundo.

Delcy Rodríguez soube conquistar a “total confiança” de Maduro. Quando a nomeou vice-presidente, em 2018, já no seu segundo e contestado mandato, Maduro descreveu-a como “jovem” e uma “corajosa testada em mil batalhas”. Em 2024, era “uma revolucionária exemplar” que surpreende a cada dia “com talento, capacidade política e espírito combativo", escreveu o líder venezuelano no X.

Ao longo dos seus anos na política ganhou proeminência por conseguir estabilizar a economia venezuelana depois de anos de crise e mesmo com sanções norte-americanas — o que lhe granjeou algum respeito. Além disso, é vista como capaz de construir pontes com elites económicas, investidores estrangeiros e diplomatas, adoptando uma postura mais próxima e agradável do que a de outras figuras mais aguerridas da esfera de Maduro.

José Manuel Romano, advogado constitucional e analista político, descreveu-a à CNN como uma “mulher com capacidades de liderança fortes” e “muito orientada para resultados”, com “influência significativa sobre todo o aparato governamental”.

Preferida em detrimento de Corina Machado
Delcy Rodríguez, que é alvo de sanções norte-americanas e europeias, não era vista como uma primeira escolha para a liderança da Venezuela. Pelo menos não em relação a María Corina Machado, líder da oposição venezuelana no exílio, que já manifestou publicamente a sua simpatia por Donald Trump, dedicando-lhe até o Prémio Nobel da Paz que ganhou no ano passado.

Apesar de Pete Hegseth reiterar que será o Presidente norte-americano a decidir “os termos” da governação da Venezuela e de Marco Rubio afirmar, em tom de aviso, que os EUA irão “avaliar” o comportamento de Delcy Rodríguez, algumas fontes próximas do processo disseram ao New York Times que o nome da vice-presidente já estava escolhido “há semanas”.

A política venezuelana terá impressionado os responsáveis da Administração Trump pela sua gestão da indústria petrolífera. “Tenho observado a carreira dela por muito tempo e tenho alguma percepção de quem ela é e o que defende”, disse um responsável que falou com o diário norte-americano. “Não estou a dizer que ela vai ser uma solução permanente para os problemas do país, mas é, certamente, alguém em quem podemos pensar para trabalhar a um nível muito mais profissional do que o que conseguimos fazer com ele”, disse, referindo-se a Maduro.

No entanto, tudo isto está dependente da forma como Rodríguez conseguir acatar as indicações norte-americanas, numa altura em que ainda não está excluída a hipótese de maior envolvimento militar.

Já María Corina Machado nunca caiu nas boas graças de Donald Trump, que evita falar publicamente dela. Na conferência de imprensa no sábado, Trump disse mesmo que Machado não “tinha o respeito” dos venezuelanos, e por isso não era uma opção. Estes comentários apanharam a líder da oposição desprevenida e foram “difíceis de digerir”, de acordo com dois elementos da sua equipa que falaram com o Washington Post.

À CNN, o analista Elías Ferrer ensaia uma explicação: Trump desiludiu-se com a oposição venezuelana durante o seu primeiro mandato, quando era liderada por Juan Guaidó. “Trump assumiu a culpa de estar a exibir um tipo que acabou por ser um fracasso total”, afirma.

Agora, Delcy Rodríguez, figura do chavismo, emerge como uma peça central no xadrez político da Venezuela – trazendo algumas certezas, ainda que temporárias, no meio de um vazio de poder deixado pela actuação norte-americana."

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