EDGAR MORIN (1921-2026): O PENSADOR DA COMPLEXIDADE E SUA HERANÇA PARA A GEOGRAFIA DO SÉCULO XXI
. Por João Damasceno*
“É preciso aprender a navegar em um oceano de incertezas por meio de arquipélagos de certezas.” - Edgar Morin
Quando a Geografia encontrou a Complexidade.
Em 29 de maio de 2026, a comunidade científica internacional despediu-se de uma das mais extraordinárias inteligências do mundo contemporâneo. Aos 104 anos, falecia em Paris Edgar Morin, filósofo, sociólogo, antropólogo, epistemólogo e um dos mais influentes pensadores dos séculos XX e XXI.
Sua morte encerrou uma trajetória intelectual que atravessou mais de um século de transformações históricas. Morin viveu a Segunda Guerra Mundial, a reconstrução da Europa, a Guerra Fria, a globalização, a revolução tecnológica e os grandes desafios planetários do século XXI. Mais do que testemunhar esses acontecimentos, dedicou sua vida a compreendê-los.
Embora não tenha sido geógrafo de formação, poucas obras influenciaram tanto a Geografia contemporânea quanto a sua. Em um período marcado pela crescente especialização das ciências, Edgar Morin propôs uma visão capaz de religar os saberes, aproximar disciplinas e compreender os fenômenos em sua totalidade.
Para a Geografia, essa contribuição foi particularmente relevante. Afinal, o espaço geográfico não é construído por elementos isolados. Ele resulta da interação permanente entre sociedade, natureza, economia, cultura, política, tecnologia e história. Ao defender uma abordagem integrada da realidade, Morin ofereceu aos geógrafos uma poderosa ferramenta para interpretar os territórios, as paisagens e as transformações do mundo contemporâneo.
Sua obra tornou-se um convite permanente para que pesquisadores e professores superassem a fragmentação do conhecimento e buscassem compreender a complexidade que caracteriza a existência humana.
Edgar Nahoum: o jovem que se tornou Edgar Morin da Complexidade
Edgar Morin nasceu em Paris, em 8 de julho de 1921, com o nome de Edgar Nahoum. Filho de uma família judaica sefardita, cresceu em uma Europa marcada por profundas tensões políticas e sociais. Sua infância foi profundamente impactada pela morte precoce de sua mãe, Luna Beressi, quando ele tinha apenas dez anos de idade. Essa perda deixou marcas que o acompanhariam durante toda a vida e que contribuíram para despertar seu interesse pelas questões humanas, pela fragilidade da existência e pelos desafios da condição humana.
A juventude de Edgar Nahoum coincidiu com a ascensão dos regimes totalitários na Europa. Com a invasão da França pelas tropas nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, sua condição de judeu tornou-se uma ameaça permanente.
Foi nesse contexto que ingressou na Resistência Francesa. Atuando na clandestinidade, passou a utilizar pseudônimos para proteger sua identidade. Entre esses nomes estava “Morin”, inicialmente um codinome de guerra utilizado durante as atividades de resistência contra a ocupação alemã e o regime colaboracionista de Vichy.
O que começou como uma necessidade de sobrevivência tornou-se uma escolha de vida. Após o fim da guerra, Edgar decidiu manter o sobrenome adotado durante a resistência. O nome “Morin” passou a simbolizar não apenas uma nova identidade, mas também os valores que marcariam toda a sua trajetória intelectual: a defesa da liberdade, a crítica aos autoritarismos, o compromisso com a democracia e a busca permanente por uma compreensão mais profunda da humanidade. Assim, Edgar Nahoum transformou-se definitivamente em Edgar Morin, nome que passaria a ocupar lugar de destaque entre os maiores intelectuais do mundo contemporâneo.
A guerra e o nascimento de uma consciência crítica
A experiência da Segunda Guerra Mundial foi decisiva para a formação do pensamento de Morin. Ao testemunhar a violência do nazismo, a perseguição aos judeus e a devastação provocada pelo conflito, compreendeu que os maiores perigos da humanidade frequentemente surgem quando indivíduos ou instituições acreditam possuir verdades absolutas.
Essa percepção acompanharia toda a sua obra. Morin tornou-se um crítico permanente dos dogmatismos políticos, ideológicos e científicos. Para ele, a realidade humana é complexa demais para caber em explicações simplificadoras. Uma de suas frases mais conhecidas sintetiza essa preocupação: “A pior forma de ignorância é acreditar que se sabe.”
Ao longo de toda a sua trajetória, procurou demonstrar que o conhecimento verdadeiro exige dúvida, reflexão e capacidade de revisão permanente.
A construção de um intelectual sem fronteiras
Após a guerra, Morin iniciou uma intensa carreira acadêmica e intelectual.
Durante alguns anos aproximou-se do marxismo e do Partido Comunista Francês, experiência que posteriormente analisaria de forma crítica em diversas obras. Essa capacidade de revisar suas próprias convicções tornou-se uma característica marcante de sua produção intelectual.
Ao contrário de muitos pensadores que permaneceram presos a uma única escola teórica, Morin buscou dialogar com diferentes campos do conhecimento. Sua obra incorporou contribuições da sociologia, filosofia, antropologia, biologia, psicologia, história, ecologia e educação.
Essa postura interdisciplinar tornou-se uma das marcas centrais de seu pensamento.
Para Morin, compreender a realidade exigia ultrapassar as fronteiras artificiais que separavam as disciplinas acadêmicas.
O nascimento do Pensamento Complexo
A partir da década de 1970, Edgar Morin passou a desenvolver aquilo que se tornaria sua principal contribuição para a ciência contemporânea: a Teoria do Pensamento Complexo.
Seu diagnóstico era ao mesmo tempo simples e revolucionário. Segundo ele, a ciência moderna alcançou avanços extraordinários graças à especialização. Entretanto, ao dividir excessivamente os objetos de estudo, acabou produzindo uma compreensão fragmentada da realidade.
Morin não criticava a especialização em si. O problema surgia quando os conhecimentos produzidos deixavam de dialogar entre si. Para ele: “Complexidade significa aquilo que foi tecido junto.”
Essa definição tornou-se uma das bases de sua teoria. A realidade não é composta por elementos isolados.
Sociedade e natureza estão conectadas.
Economia e cultura interagem permanentemente.
Tecnologia e território influenciam-se mutuamente. O local e o global coexistem. O indivíduo e a coletividade são inseparáveis. Compreender essas relações tornou-se o principal objetivo do pensamento complexo.
O Método: a obra de uma vida
A expressão mais completa desse projeto intelectual encontra-se em sua obra monumental intitulada O Método. Publicada entre 1977 e 2004, a coleção reúne seis volumes que representam uma das mais ambiciosas construções teóricas do século XX.
O Método I – A Natureza da Natureza
Discute as relações entre ordem, desordem e organização.
O Método II – A Vida da Vida
Analisa os sistemas vivos e sua capacidade de auto-organização.
O Método III – O Conhecimento do Conhecimento
Reflete sobre os processos cognitivos humanos.
O Método IV – As Ideias
Examina ideologias, paradigmas e sistemas de pensamento.
O Método V – A Humanidade da Humanidade
Investiga a condição humana em suas múltiplas dimensões.
O Método VI – Ética
Propõe uma ética fundamentada na solidariedade, na responsabilidade e na consciência planetária. Ao longo desses volumes, Morin procurou demonstrar que o conhecimento não deve separar aquilo que a realidade mantém unido.
Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro
Se existe uma obra de Morin que alcançou escolas, universidades e sistemas educacionais em todo o mundo, essa obra é Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro. Elaborado a convite da UNESCO, o livro tornou-se referência internacional para a formação de professores e para os debates sobre políticas educacionais.
Morin argumentava que a educação do século XXI deveria preparar os estudantes para compreender a complexidade do mundo.
Os sete saberes propostos por ele são:
1) Reconhecer os erros e ilusões do conhecimento;
2) Produzir conhecimentos pertinentes;
3) Ensinar a condição humana;
4) Ensinar a identidade terrena;
5) Preparar para enfrentar as incertezas;
6) Ensinar a compreensão;
7) Desenvolver uma ética do gênero humano.
Esses princípios continuam influenciando programas de formação docente em diversos países e dialogam diretamente com os desafios da educação geográfica contemporânea.
Edgar Morin e a Geografia
Talvez seja na Geografia que o pensamento complexo tenha encontrado uma de suas mais fecundas aplicações. Embora não fosse geógrafo de formação completa, Morin forneceu instrumentos teóricos fundamentais para compreender a organização espacial da sociedade.
A Geografia contemporânea passou a incorporar em suas reflexões temoas sobre: Totalidade; Interdisciplinaridade; Complexidade; Relações sociedade-natureza; Sustentabilidade; Escalas espaciais; Territorialidade.
Ao analisar um território, por exemplo, o geógrafo não pode considerar apenas aspectos físicos ou apenas aspectos sociais. É necessário compreender as múltiplas relações que produzem o espaço geográfico. Essa perspectiva aproxima Morin de importantes reflexões desenvolvidas peli geógrafo brasileiro Milton Santos.
Assim como Milton Santos defendia a análise do espaço como uma totalidade dinâmica, Morin insistia que nenhum fenômeno pode ser compreendido isoladamente. Para a Geografia, sua principal contribuição foi demonstrar que a realidade territorial é necessariamente complexa.
A Terra-Pátria e a consciência planetária
Nas últimas décadas de sua vida, Morin voltou sua atenção para os desafios globais que ameaçam a humanidade.
Mudanças climáticas.
Desigualdades sociais.
Crises energéticas.
Conflitos internacionais.
Pandemias.
Segundo ele, esses problemas revelam uma característica fundamental do mundo contemporâneo: a interdependência planetária. Foi nesse contexto que desenvolveu o conceito de Terra-Pátria. Para Morin:“Somos simultaneamente indivíduos, sociedades e espécie.”
Essa frase resume uma das ideias centrais de sua obra: o futuro da humanidade depende da capacidade de reconhecer que compartilhamos um destino comum.
Frases que marcaram gerações
Ao longo de sua trajetória, Edgar Morin produziu reflexões que ultrapassaram os limites acadêmicos e passaram a integrar o repertório intelectual de milhões de pessoas:
“Conhecer e pensar não é chegar a uma verdade absolutamente certa, mas dialogar com a incerteza.”
“A inteligência parcelada rompe o complexo do mundo em fragmentos desconectados.”
“O conhecimento pertinente deve enfrentar a complexidade.”
“A verdadeira racionalidade reconhece os limites da razão.”
“A educação deve preparar para enfrentar as incertezas.”
“A compreensão humana é ao mesmo tempo meio e fim da comunicação.”
“O futuro permanece aberto.”
O legado de Edgar Morin
Ao falecer em maio de 2026, Edgar Morin deixou uma obra que continuará influenciando gerações de pesquisadores, educadores e estudantes. Sua principal contribuição não foi oferecer respostas prontas.
Foi ensinar a formular perguntas melhores.
Foi demonstrar que os grandes problemas do mundo não podem ser compreendidos por abordagens simplificadoras.
Foi lembrar que a realidade é feita de conexões, interações e contradições.
Para a Geografia, seu legado permanece particularmente atual. Em um período marcado por crises ambientais, urbanização acelerada, transformações tecnológicas e desafios territoriais cada vez mais complexos, o pensamento de Morin continua oferecendo caminhos para compreender a totalidade dos fenômenos espaciais.
Sua vida começou sob o nome de Edgar Nahoum e atravessou um século de profundas transformações. Tornou-se Edgar Morin nas sombras da Resistência Francesa, em meio à luta contra o nazismo, e com esse nome construiu uma das mais influentes obras intelectuais da história contemporânea.
Mais do que um filósofo ou sociólogo, Morin tornou-se um pensador da humanidade. E sua mensagem permanece atual:
“A complexidade não é a chave do mundo; é o desafio a enfrentar.”
Num tempo em que o conhecimento tende a se fragmentar, Edgar Morin continua nos lembrando da necessidade de religar saberes, compreender contextos e reconhecer que o mundo, assim como a vida, é uma trama complexa de relações que jamais podem ser reduzidas a explicações simples.
*Prof. Dr. João Damasceno - Pesquisador e professor Associado da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Departamento de Geografia, Centro de Educação, Campus I, em Campina Grande/PB. Banco de Currículos Lattes do CNPq.
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