YVES LACOSTE (1929-2026): O GEÓGRAFO QUE REVELOU O PODER CONTIDO NOS TERRITÓRIOS

    Por João Damasceno*

Nota introdutória

A Geografia mundial perdeu, em 20 de junho de 2026, uma de suas maiores referências intelectuais. Yves Lacoste deixa uma obra que ultrapassa fronteiras disciplinares e continua influenciando geógrafos, historiadores, cientistas políticos, estrategistas e professores em diferentes partes do mundo. 

Sua contribuição mais significativa foi recolocar a dimensão política do espaço geográfico no centro do debate científico, demonstrando que os territórios não são apenas cenários onde a sociedade se desenvolve, mas elementos ativos das relações de poder.

Em uma época em que grande parte da Geografia acadêmica concentrava seus esforços na descrição das paisagens e dos fenômenos espaciais, Lacoste questionou a aparente neutralidade da disciplina. 

Sua trajetória intelectual ajudou a transformar a maneira como o espaço geográfico passou a ser compreendido, analisado e ensinado. A formação de um pensamento crítico. Nascido em 1929, em Fez, no Marrocos, então sob domínio colonial francês, Yves Lacoste viveu desde cedo em um ambiente marcado pelas contradições políticas e territoriais do colonialismo. Essa experiência inicial contribuiu para moldar sua percepção sobre as relações entre espaço, dominação e poder.

Sua formação universitária ocorreu em um período de profundas transformações políticas no mundo. As lutas anticoloniais na África e na Ásia, a reorganização geopolítica após a Segunda Guerra Mundial e os conflitos decorrentes da Guerra Fria constituíram o pano de fundo de sua construção intelectual.

Ao contrário de muitos geógrafos de sua geração, Lacoste recusou a ideia de uma Geografia limitada à descrição de rios, montanhas, climas ou regiões. Para ele, o conhecimento geográfico possuía uma função estratégica e estava diretamente relacionado às disputas políticas e econômicas que moldavam o território.

A crítica à falsa neutralidade da Geografia

Uma das maiores contribuições de Lacoste foi demonstrar que a Geografia jamais foi uma ciência neutra. Em sua interpretação, os conhecimentos sobre o território sempre estiveram associados ao exercício do poder.

Governos, exércitos, empresas e grupos políticos utilizam informações geográficas para planejar ações, controlar recursos, estabelecer fronteiras, organizar fluxos e ampliar sua influência sobre determinados espaços. Entretanto, esse caráter estratégico da Geografia raramente era discutido de forma explícita nos ambientes escolares e universitários.

O professor Yves Lacoste denunciava a existência de uma contradição: enquanto a Geografia ensinada nas escolas era frequentemente apresentada como um conjunto de informações descritivas, a Geografia utilizada pelos centros de decisão política possuía enorme importância estratégica. Essa reflexão representou uma ruptura significativa com parte da tradição geográfica dominante durante a segunda metade do século XX.

O episódio do Vietnã e a consolidação de sua projeção internacional

A notoriedade internacional de Yves Lacoste consolidou-se durante a Guerra do Vietnã. Ao analisar os bombardeios realizados pelos Estados Unidos sobre o Delta do Rio Vermelho, identificou que muitos dos ataques incidiam sobre áreas fundamentais para o sistema de contenção de enchentes da região.

Sua análise demonstrou que os alvos não haviam sido escolhidos aleatoriamente. Existia uma lógica territorial e estratégica por trás das operações militares. O episódio evidenciou, de forma concreta, aquilo que Lacoste vinha defendendo: compreender o território significa compreender relações de poder. Esse estudo marcou profundamente sua trajetória e reforçou sua convicção de que a Geografia precisava assumir explicitamente sua dimensão política.

A obra que transformou a Geografia contemporânea

Em 1976, Lacoste publicou aquela que se tornaria uma das obras mais influentes da Geografia moderna: A Geografia - Isso Serve, em Primeiro Lugar, para Fazer a Guerra.

O impacto do livro foi imediato. O próprio título provocava desconforto entre muitos geógrafos, pois rompia com a visão tradicional da disciplina como um campo neutro e exclusivamente acadêmico.

Entretanto, a interpretação literal do título frequentemente gerou equívocos. Lacoste não afirmava que a Geografia existia apenas para fins militares. Sua intenção era demonstrar que historicamente os conhecimentos geográficos foram desenvolvidos e utilizados, antes de tudo, como instrumentos de controle territorial e exercício do poder.

O livro expôs uma realidade frequentemente ignorada: mapas, levantamentos territoriais, censos populacionais, redes de transporte e informações ambientais constituem recursos estratégicos fundamentais para governos e instituições.

Ao longo dos anos, a obra tornou-se leitura obrigatória em cursos de Geografia em diversos países, sendo considerada um marco da Geografia Crítica e da renovação da Geopolítica contemporânea.

A redescoberta da Geopolítica
Durante décadas, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, a Geopolítica enfrentou resistência em parte da academia devido às associações feitas entre determinadas interpretações geopolíticas e projetos expansionistas europeus.

O prof. Yves Lacoste foi um dos responsáveis por recuperar esse campo de estudos, demonstrando que compreender as disputas territoriais era fundamental para interpretar a dinâmica do mundo contemporâneo.

Sob sua influência, a Geopolítica voltou a ocupar espaço relevante nos debates acadêmicos. Conflitos internacionais, disputas por recursos naturais, movimentos separatistas, nacionalismos, migrações e transformações territoriais passaram a ser analisados a partir de uma perspectiva renovada.

A criação da revista Hérodote, em meados da década de 1970, tornou-se um marco desse processo. A publicação rapidamente converteu-se em referência internacional para os estudos geopolíticos e permanece como uma das mais importantes revistas da área.

Yves Lacoste e a formação dos professores de Geografia

Poucos autores exerceram influência tão significativa sobre a formação dos professores de Geografia quanto Yves Lacoste. No Brasil, suas ideias ganharam força principalmente a partir da década de 1980, período em que a Geografia passava por um intenso processo de renovação teórica.

Suas reflexões dialogaram diretamente com os debates desenvolvidos por importantes geógrafos brasileiros, contribuindo para fortalecer uma abordagem mais crítica do ensino da disciplina.

A partir de então, ensinar Geografia deixou de significar apenas transmitir informações sobre países, capitais ou aspectos naturais. Passou a envolver a compreensão das relações entre território, sociedade, economia e poder.

Nas licenciaturas brasileiras, especialmente entre as décadas de 1980 e 2000, milhares de estudantes tiveram contato com suas ideias. Seu pensamento ajudou a formar gerações de professores comprometidos com uma leitura crítica do espaço geográfico e das desigualdades territoriais.

Principais contribuições para a Geografia.

Entre seus legados mais duradouros destacam-se:
1) A valorização do território como categoria central de análise;
2) A compreensão do espaço geográfico como expressão de relações de poder;
3) O fortalecimento da Geopolítica como campo legítimo de investigação científica;
4) A defesa da análise multiescalar dos fenômenos geográficos;
5) A crítica à falsa neutralidade da produção do conhecimento;
6) A aproximação entre Geografia, política e sociedade;
7) A renovação do ensino de Geografia em diversos países.

Linha do tempo da trajetória de Yves Lacoste

1929 - Nasce em Fez, no Marrocos.
Década de 1950 - Inicia suas pesquisas sobre desenvolvimento e subdesenvolvimento.
1965 - Publica importantes estudos sobre as desigualdades espaciais nos países periféricos.
1972 - Ganha projeção internacional com suas análises sobre os bombardeios no Vietnã.
1976 - Publica A Geografia – Isso Serve, em Primeiro Lugar, para Fazer a Guerra.
1976 - Participa da consolidação da revista Hérodote.
Décadas de 1980 e 1990 - Torna-se referência mundial em Geopolítica e Geografia Política.
2000-2020 - Suas obras continuam influenciando pesquisas, currículos universitários e a formação de professores em diversos países.
2026 - Falece aos 96 anos, deixando um dos mais importantes legados intelectuais da Geografia contemporânea.

A Geografia Como Leitura do Mundo: Considerações de Percurso

A importância de Yves Lacoste não reside apenas em suas publicações, mas na transformação que promoveu na própria forma de pensar a Geografia. Sua obra ensinou que compreender o espaço significa compreender interesses, disputas, estratégias e relações de poder.

Ao questionar a aparente neutralidade do conhecimento geográfico, Lacoste ampliou os horizontes da disciplina e abriu novos caminhos para a pesquisa e para o ensino. Sua produção permanece atual porque os conflitos territoriais, as disputas geopolíticas e as desigualdades espaciais continuam sendo elementos centrais do mundo contemporâneo.

Seu legado permanece vivo nas universidades, nas escolas, nos centros de pesquisa e no trabalho cotidiano dos professores de Geografia. Mais do que um grande geógrafo, Yves Lacoste foi um intelectual que ensinou gerações a enxergar o território para além da paisagem, revelando as forças políticas que o produzem, transformam e disputam.

REFERÊNCIAS
CLAVAL, Paul. História da Geografia. Lisboa: Edições 70, 2014.
LACOSTE, Yves. A Geografia – Isso Serve, em Primeiro Lugar, para Fazer a Guerra. 19. ed. Campinas: Papirus, 2012.
LACOSTE, Yves. A Geografia. São Paulo: Ática, 1988.
LACOSTE, Yves. Geopolítica: a longa história do presente. Porto: Porto Editora, 2008.
MORAES, Antonio Carlos Robert. Geografia: Pequena História Crítica. 21. ed. São Paulo: Annablume, 2007.
SANTOS, Milton. Por uma Geografia Nova: da crítica da Geografia a uma Geografia Crítica. 6. ed. São Paulo: Edusp, 2008.
VESENTINI, José William. Geografia Crítica e Ensino. Campinas: Papirus, 2004.
*Prof. Dr. João Damasceno - Pesquisador e professor Associado da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Departamento de Geografia, Centro de Educação, Campus I, em Campina Grande/PB. Banco de Currículos Lattes do CNPq.

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